O acesso à internet e o uso indiscriminado do celular trouxeram muitas facilidades para o dia a dia, mas também abriram as portas para situações que antes ficavam distantes da maioria das pessoas. Hoje em dia, as plataformas de apostas esportivas (conhecidas como “bets”), jogos virtuais como o ‘jogo do Tigrinho’ e cassinos on-line estão a um clique de distância.
Para quem convive com a doença de Huntington (DH) na família, essa facilidade de acessar tais plataformas esbarra em uma questão sensível: as alterações cognitivas e comportamentais/psiquiátricas que afetam os pacientes impede que eles controlem os impulsos e percebam os riscos associados às apostas.
O cérebro e a perda do controle dos impulsos
A doença de Huntington é visivelmente reconhecida pelos movimentos involuntários. Entretanto, sua manifestação não se restringe apenas a este sintoma. A DH causa alterações progressivas em áreas do cérebro responsáveis pela nossa capacidade de avaliar riscos, planejar o futuro e frear comportamentos impensados.
Com a evolução da doença, a impulsividade surge como um dos sintomas comportamentais. Em muitos casos, o paciente pode agir no ‘calor da emoção’, trocando os gastos essenciais (dinheiro do aluguel, contas, alimentação e medicamentos) por itens supérfluos, sem conseguir avaliar as consequências financeiras de seus atos.
A repetição, o comportamento obsessivo e as apostas
Outro sintoma frequente no decorrer da progressão da DH é a repetição/persistência: trata-se da dificuldade de mudar o foco de um pensamento ou de interromper uma atividade que já foi iniciada.
Os doentes de Huntington podem manifestar sintomas do Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), como a presença de ideias recorrentes (obsessivas) e de rituais repetitivos para aliviar a ansiedade (compulsão). Eles podem ficar irritados se os seus pedidos forem ignorados ou negados.
As plataformas de apostas, cassinos e outros jogos virtuais são desenhadas justamente para prender a atenção e estimular o comportamento repetitivo. Utilizam cores vibrantes, animações chamativas, sons de moedas e falsas celebrações para estimular a sensação de recompensa e a ilusão de que a vitória está sempre próxima.
No cérebro de uma pessoa com DH esses estímulos podem criar um ciclo difícil de quebrar por conta própria. O paciente pode passar horas na tela do celular jogando ou insistir em novas apostas na tentativa de recuperar o dinheiro perdido. Isso não acontece por teimosia, mas porque a parte responsável por esse controle no sistema nervoso está danificado pela degeneração das células do cérebro.
Como proteger a pessoa com DH
Esperar que a pessoa com DH pare de jogar por iniciativa própria pode colocar em risco o patrimônio e a estabilidade financeira de toda a família. Mas como adentrar o assunto? Toda e qualquer intervenção deve ser feita de maneira a proteger o paciente.
- Tente conversar abertamente com a pessoa, sem acusações e sem julgamentos. Lembre-se de que, na maioria das vezes, ela não tem controle sobre seus impulsos e não faz de propósito.
- Pouco a pouco assuma o gerenciamento das finanças, dos gastos e dos cartões de crédito.
- Relate a situação e peça ajuda para um médico neurologista, psiquiatra ou psicólogo que já acompanhe o paciente.
Existem tratamentos medicamentosos que ajudam a manejar a impulsividade e a ansiedade associadas à DH.
Pedir ajuda não é fraqueza
Se você se reconhece nesse texto, saiba que existe uma forma de se proteger das plataformas de apostas de maneira voluntária.
O Ministério da Fazenda desenvolveu uma ferramenta que permite que qualquer cidadão brasileiro restrinja o próprio acesso a todas as casas de apostas regularizadas no país, por um período determinado ou por tempo indeterminado.
Para ativar essa proteção, o passo a passo é simples:
- Acesse a página Autoexclusão dos sites de apostas do Ministério da Fazenda;
- Clique em Solicitar ou consultar minha autoexclusão das plataformas de apostas;
- Faça a autenticação utilizando a sua conta gov.br (é necessário que ela seja de nível prata ou ouro);
- Preencha a solicitação escolhendo o motivo, o período do bloqueio e aceite os termos de uso.
Proteger a integridade do paciente e a estabilidade financeira da família é uma forma de cuidado.

